Imagem retirada do site Chris Kresser

Artigo traduzido e adaptado por Juliana Praetorius Buchweitz.

Autor Chris Kresser, conferir o texto na língua original.
Publicado dia 23 de março de 2016.

Embora existam muitos fatores que influenciam a função da tireoide, pesquisas recentes sugerem que a saúde do intestino pode ser uma peça-chave. Os trilhões de micróbios que residem em seu intestino tem uma profunda influência sobre a produção de hormônios e nos hormônios da tireoide. Leia mais para descobrir se uma alteração na microbiota intestinal pode estar contribuindo para o seu problema de tireoide, e aprender como curar seu intestino para ajudar a melhorar a função da tireoide.

Um princípio central da medicina funcional é tratar a causa subjacente de uma doença, ao invés de apenas tratar os sintomas. Em um artigo anterior do blog, eu discuti a conexão entre a saúde do intestino como um todo e a tireoide. Neste artigo, vamos nos concentrar sobre os próprios micróbios e as muitas maneiras pelas quais eles estão ligados a função da tireoide.

A importância dos micróbios e seus metabólitos na saúde endócrina

Nos últimos anos, a microbiota esta sendo citada como causa de numerosas doenças crônicas, desde obesidade e doença inflamatória do intestino até esclerose múltipla (1). Realmente não deve ser nenhuma surpresa que a nossa microbiota também tenha um impacto profundo em órgãos endócrinos, como a tireoide. A alterações da flora intestinal e subsequente alteração da função da tireoide foi sugerida como hipótese pela primeira vez no início de 1900, muito antes dos termos “microbiota” e “microbioma” sequer existirem (2).

Hoje, a sequenciação microbiana de amostras de fezes humanas nos permite medir as diferenças de composição da microbiota. Um estudo de 2014 verificou que indivíduos com hipertiroidismo tinham números significativamente mais baixos de Bifidobacteria e Lactobacilli e níveis significativamente mais elevados de espécies de Enterococcus, em comparação com o grupo de controle saudável (3). Ainda não temos nenhum estudo equivalente feito em indivíduos com hipotireoidismo, mas dado que 90% dos casos de hipotireoidismo são de natureza auto-imune (4) e o fato de que uma microbiota alterada tem sido relacionada com inúmeras outras doenças auto-imunes, é bastante provável que a disbiose também desempenhe um papel significativo em relação ao hipotiroidismo (5).

As bactérias reconhecem os tipos diferentes de moléculas endócrinas do seu hospedeiro, incluindo adrenalina, noradrenalina, hormônios sexuais, e hormonas da tiroide, e podem até mesmo alterar aspectos do seu metabolismo e virulência em resposta a esses sinais (6). Além disso, ratos “livres de germes”, que são criados em condições estéreis e não possuem bactérias do intestino “completas”, têm glândulas da tiroide menores do que os ratos convencionais, sugerindo um papel crucial que estas bactérias podem vir a ter sobre a saúde da tiroide (7).

Bactérias do intestino influenciam a disponibilidade de nutrientes

As células epiteliais que formam o forro do intestino têm projeções semelhantes a dedos chamadas vilosidades, que aumentam a área da superfície para o transporte de nutrientes no corpo. Quando o intestino está inflamado, como ocorre com frequência em casos de disbiose, estas vilosidades podem estar machucadas, resultando em uma absorção de nutrientes comprometida. Isso inclui nutrientes como o iodo e selênio, que são vitais para a saúde da tiroide.

Enquanto a microbiota proporciona muitos benefícios para o anfitrião, ela também compete por alguns nutrientes. Os nutrientes que são essenciais para as nossas células funcionar corretamente também são nutrientes importantes para os nossos micróbios! A composição da microbiota pode, portanto, influenciar a exigência de uma pessoa por vários nutrientes. Na verdade, um estudo de 2009 realizado em camundongos sugere que a microbiota compete com o anfitrião pela absorção de selênio. Quando o selênio é escasso, a síntese de seleno-proteínas acaba sendo prejudicada, sendo estas necessárias para o bom funcionamento da tireoide (8). Em outro estudo, ratos foram alimentados com antibióticos e tiveram a captação de iodo significativamente menor pela tireoide (7).

Bactérias Intestinais e LPS

O lipopolissacárido, ou LPS, é um componente das paredes celulares bacterianas. Quando a permeabilidade intestinal aumenta, muitas vezes como resultado de uma disbiose, o LPS pode “vazar” para a corrente sanguínea. Isso pode causar estragos na tireoide de diferentes maneiras.

O hormônio estimulante da tireoide (TSH) induz a tireoide para produzir o T4. T4 é a forma inativa do hormônio da tireoide e deve ser convertido para T3, a forma ativa. Nossos corpos produzem uma enzima chamada iodotironina deiodinase, que é responsável por fazer essa conversão. O LPS tem demonstrado inibir esta enzima, diminuindo a quantidade de T3 ativa em circulação (9).

Você não precisa só do hormônio da tiroide ativo, mas também precisa de receptores para o hormônio em células de todo o corpo. Mesmo alguém cujo os marcadores de hormônios da tireoide pareçam perfeitos poderia sofrer de sintomas de hipotireoidismo se o seu corpo não produzisse receptores suficientes para receber os sinais da tireoide. O LPS tem demonstrado diminuir a expressão dos receptores da tireoide, especificamente no fígado (10).

O LPS também induz a expressão do symporter de sódio-iodo (NIS) em células da tireoide, aumentando a absorção de iodo na tireoide (11). O iodo é importante para a saúde da tireoide, e isso pode soar como uma algo bom, mas foi encontrado excesso de iodo (especialmente com deficiência de selênio ocorrendo de forma simultânea) o que contribui para o desenvolvimento de Hashimoto, a forma auto-imune de hipotireoidismo (12).

Bactérias intestinais influenciam a conversão de T4 em T3

Acabamos de falar que o T4 inativo deve ser convertido em T3 ativo, certo? Bem, cerca de 20% desta conversão ocorre no trato gastro-intestinal! Bactérias intestinais parasitas podem converter T4 inativo em sulfato de T3, o qual pode então ser recuperado sob a forma ativa T3 por uma enzima chamada sulfatase intestinal (13).

Os ácidos biliares apresentam outra conexão interessante entre as bactérias do intestino e funções da tireoide. Os ácidos biliares primários são produzidos na vesícula biliar e segregadas para o intestino delgado após o consumo de gorduras. O metabolismo de ácidos biliares primários pelas bactérias do intestino resulta na formação dos ácidos biliares secundários. Estes ácidos biliares secundários aumentam a atividade de desiodase iodotironina (a principal enzima que converte T4 em T3) (14).

Vamos ver uma forma que metabólitos de bactérias intestinais podem influenciar a saúde da tiroide mais tarde, quando falamos de pré-bióticos.

SIBO e a tiroide

A função da tireoide também está intimamente relacionada com o super crescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO). Num indivíduo saudável, a maioria dos micróbios estão concentrados no intestino grosso. Em  indivíduos com SIBO, certas bactérias e archaeas são capazes de colonizar o intestino delgado e se proliferar, causando inchaço, gases, distensão, entre outros sintomas desagradáveis.

A conexão entre SIBO e a tireoide acaba sendo subvalorizada. Um estudo de 2007 descobriu que entre as pessoas com história de hipotireoidismo auto-imune, 54% tinham um teste positivo para SIBO em comparação com 5% do grupo de controle (15). Não se sabe se a relação é causal. Hormônios da tiroide ajudam a estimular a motilidade intestinal, e também é possível que a baixa motilidade e constipação proporcionem um ambiente no intestino delgado que é propício ao crescimento excessivo de bactérias. Este pode ser um dos muitos exemplos de interação bi-direcional entre o hospedeiro e as bactérias residentes.

Conclusão: cure seu intestino para melhorar a função da tireoide

Então, como podemos aplicar esta informação? Aqui estão quatro maneiras que você pode melhorar a função da tiroide:

  1. Coma muita fibra fermentável:
    Metabólitos bacterianos são potentes moduladores endócrinos. Quando você consume fibras fermentáveis, como: mandioca, batata doce, ou banana (pre-bióticos), as suas bactérias intestinais  fermentam essas fibras e produzem ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs). Os SCFAs demonstraram inibir enzimas intimamente envolvidos na regulação epigenética. Em outras palavras, elas ajudam a determinar se um gene é expresso ou não. Entre muitas outras coisas, a inibição mediada por SCFAs aumenta a expressão de receptores da tiroide (16).
  2. Tomar probióticos ou comer alimentos fermentados:
    Apesar de existir uma  grande hipótese da ligação entre micróbios do intestino e função da tireoide, há poucos estudos controlados em seres humanos que tentaram manipular a microbiota intestinal para melhorar a saúde da tiroide. No entanto, a suplementação em frangos de corte com bactérias láticas demonstrou aumentar os hormônios da tireoide no plasma sanguíneo (17) e a suplementação de Lactobacillus reuteri melhorou a função da tireoide em ratos (18). Bactérias láticas são comumente encontrados em vegetais fermentados, como chucrute e kimchi e produtos lácteos fermentados, como iogurte e kefir.
  3. Faça o teste para SIBO ou patógenos intestinais:
    Enquanto ainda não se entra em um consenso se problemas da tireoide causam SIBO ou SIBO provoca problemas de tireoide, certamente não faz mal fazer o teste, especialmente se você esta sentindo inchaço, desconforto abdominal ou outros sintomas característica de um crescimento excessivo ou infecção.
  4. Tomar outras medidas para curar seu intestino:
    Retirar alimentos inflamatórios, gerenciar o estresse e comer uma dieta rica em nutrientes, que incluam em abundancia alimentos que ajudam a curar o intestino, como caldo de osso. Para algumas pessoas, a cura do intestino pode ser suficiente para melhorar os sintomas da tireoide.

Agora eu gostaria de ouvir de você. Você sabia sobre a conexão entre a microbiota e a tireoide? Você notou alguma melhora em seus sintomas de tireoide por comer uma dieta sem componentes inflamatórios? Partilhe a sua experiência nos comentários!

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