Imagem retirada do site Active News

Artigo traduzido e adaptado por Juliana Praetorius Buchweitz.

Autor Chris Kresser, conferir o texto na língua original.
Publicado dia 28 de abril de 2016.

Cada superfície mucosa em seu corpo é colonizada por um grupo distinto de microrganismos, incluindo seu intestino, pulmões e passagens nasais. Longe de causar danos, estes micróbios “ensinam” o seu sistema imunológico a tolerar as proteínas advindas da dieta e outros alergênicos inofensivos no ambiente. Leia mais para aprender como a alteração de seus micróbios residentes pode estar associado a suas alergias, e aprender quais os passos que você pode tomar para aliviar os piores sintomas.

Você pode ter notado que os micróbios têm sido o foco principal do meu blog recentemente. A flora microbiana é um campo em rápido crescimento de pesquisa, e a alteração da microbiota, ou “disbiose”, tem esta sendo estudada como causa de muitas doenças crônicas (1). A capacidade de manipular a microbiota usando intervenções na dieta e no estilo de vida faz com que estes sejam o foco principal para uma abordagem funcional no tratamento da doença.

Recentemente, eu escrevi sobre os perigos do uso de antibióticos em crianças e também discuti a relação entre micróbios do intestino e da tiroide. Aqui, eu vou abordar a ligação do intestino, pulmão e os micróbios das vias aéreas para doenças alérgicas.

A hipótese da higiene

À medida que a microbiota ganhou mais atenção na mídia, você pode ter ouvido sobre a “hipótese da higiene”. Originalmente proposto no final de 1980 para explicar a menor prevalência de rinite alérgica crônica em famílias maiores (2), a hipótese moderna evoluiu, sugerindo que a nossa insistência na limpeza e falta de exposição a micróbios ambientais no mundo desenvolvido priva nossos corpos de estimulação imune, interrompendo o desenvolvimento imunológico normal e aumentando assim o risco de doença alérgica.

Vários estudos epidemiológicos têm fornecido suporte para a hipótese da higiene. As pessoas que possuem animais de estimação dentro de casa têm demonstrado menor incidência de doenças alérgicas (3). Crianças que crescem em fazendas (4,5) ou aqueles que consomem alimentos cru, leite não pasteurizado (6) também são menos propensos a ter alergias. Por outro lado, as influências ambientais precoces da vida são conhecidos por perturbar a flora microbiana e aumentar o risco de doenças alérgicas. O uso de antibióticos (7), a cesariana (8), e a alimentação com fórmula (9) estão associados com o aumento da susceptibilidade à asma e alergias mais tarde na vida.

Os recentes avanços na tecnologia de sequenciação têm permitido aos pesquisadores comparar as microbiotas intestinais de crianças alérgica e não alérgica. As crianças com alergias tendem a ter maior abundância de Staphylococcus, Clostridium, e e algumas espécies de Escherichia, enquanto que os números de Lactobacillus e Bifidobacteria são reduzidos de forma significativa (10,11) em comparação com crianças saudáveis.

Analisados em conjunto, estes estudos sugerem que a exposição a uma diversificada gama de micróbios no início da vida “treina” de forma eficaz o nosso sistema imunológico, ensinando-o quais as substâncias no ambiente são prejudiciais (micróbios patogênicos), e quais são inofensivas (micróbios amigáveis, proteínas dietéticas, e muitos alérgenos ambientais). Veremos em seguida que o ambiente da mucosa no intestino e pulmões é crucial para esta “educação” do sistema imunológico.

As alergias alimentares: todos os caminhos levam de volta para o intestino

A alergia alimentar se tornou uma epidemia em nosso mundo moderno. Levando em conta que a alergia alimentar era considerada uma anomalia apenas algumas décadas atrás, hoje, 1 a cada 13 crianças nos Estados Unidos sofre de uma alergia alimentar que pode levar ao choque anafilático, com risco de vida (12). E este número não inclui as pessoas com doença celíaca, a sensibilidade ao glúten não celíaco, intolerância à lactose, ou qualquer outro tipo de intolerância alimentar. Como a principal local de absorção da dieta também é responsável por 80% das células do sistema imunológico do seu corpo, faz sentido que o intestino seja uma peça-chave na patologia de alergias alimentares.

Seu intestino é forrado com milhões de células epiteliais que são responsáveis por manter uma barreira entre o conteúdo do intestino (o lúmen intestinal) e sua corrente sanguínea. Em um intestino saudável, pequenas nutrientes são absorvidos, mas grandes proteínas dietéticas são incapazes de atravessar essa barreira e entrar na corrente sanguínea. No entanto, quando a barreira intestinal torna-se comprometida (ou seja, síndrome do “intestino permeável” ), estas grandes proteínas dietéticas são capazes de entrar no sangue, estimular uma resposta imune, e produzir vários sintomas característicos de doenças alérgicas (13).

Então, como isso se relaciona com os micróbios? Estudos em ratos mostraram que alterar a microbiota com antibióticos ou uma dieta pobre em fibras é capaz de causar este aumento da permeabilidade da barreira. Por outro lado, certas cepas de bactérias do gênero Clostridia são capazes de proteger contra a permeabilidade intestinal à alergênios de alimentos (14). Os investigadores estão procurando desenvolver probióticos que contenham estas cepas como um potencial tratamento para alergias alimentares.

Alergias das vias aéreas: pulmões furados?

A incidência de doenças respiratórias alérgicas também tem aumentado dramaticamente nas últimas décadas, a asma alérgica e rinite alérgica afetam atualmente cerca de 20,3 milhões de americanos e 50 milhões de americanos, respectivamente (15,16). Muito mais pessoas sofrem de alergias menos graves das vias aéreas e dos seios da face. Por um bom tempo, pensava-se que os pulmões estavam completamente estéreis (17). Apenas recentemente, com o desenvolvimento de técnicas de cultura-independente, foram encontradas comunidades distintas de micróbios nos pulmões, que ainda precisam ser identificadas.

Curiosamente, o epitélio do intestino é estruturalmente muito semelhante ao endotélio pulmonar, e inflamações tentem a ocorrer em ambas as áreas em pessoas com doenças alérgicas nas vias aéreas. Enquanto não há muitos estudos que avaliaram a permeabilidade pulmonar, parece plausível que os mecanismos que levam ao intestino permeável também podem causar “pulmões furados” (ou pulmões mais permeáveis). Assim como no intestino, comunidades microbianas provavelmente terão um grande impacto sobre a integridade do tecido pulmonar.

Ao contrário do intestino, no entanto, a diversidade reduzida (de bactérias) parece estar associado com uma melhor saúde. Asmáticos têm demonstrado ter uma maior diversidade de micróbios nos pulmões em comparação com indivíduos saudáveis (18). Eles têm níveis aumentados de Proteobacteria e níveis reduzidos de espécies de Bacteroides em comparação com grupos de controle saudáveis (19). Embora a caracterização das bactérias, vírus e archaea que compõem a “microbiota do pulmão” ainda está no incio, ele representa uma fronteira importante no domínio das doenças das vias respiratórias alérgicas.

A ligação da histamina

A histamina é um composto extremamente importante no corpo. Atua como um neurotransmissor e regula a produção de ácido no estômago, a permeabilidade dos vasos sanguíneos, e a contração do músculo esquelético (20). É também um importante componente da resposta imune e, assim, um importante mediador em reações alérgicas. Enquanto todos nós precisamos de uma certa quantidade de histamina para que ocorram as funções fisiológicas de maneira adequada, algumas pessoas têm uma condição chamada de intolerância histamínica, em que eles produzem excesso de histamina e/ou tem uma deficiência de diamina oxidase, a enzima que decompõe a histamina.

Muitos micróbios que residem no intestino humano são capazes de produzir histamina. Estes micróbios produzem uma enzima chamada histidina descarboxilase, que converte a histidina presentes em várias proteínas em histamina. Quanto mais desses micróbios você possuir, e mais histidina você consome, maior a quantidade de histamina que pode ser produzida no seu intestino. A histamina pode ser, em seguida, absorvida por células epiteliais e trafegar para vários locais do corpo, agravando os sintomas alérgicos (21).

Bactérias produtoras de histidina descarboxilase também estão presentes nas vísceras de animais como peixes. Quando um peixe morre, as suas bactérias do intestino começam a quebrar a histidina presente em sua própria proteína tecidual e produzir histamina. É por este motivo que muitas pessoas com intolerância a histamina só conseguem tolerar peixes que foram imediatamente processados e congelados.

Estão especulando se indivíduos com SIBO (Small Intestinal Bacterial Overgrowth) poderiam ter um crescimento excessivo de bactérias produtoras de histamina, tais como os lactobacilos, no seu intestino delgado. Embora lactobacilos são um importante gênero de bactérias benéficas no intestino, são também os principais produtores de histamina e pode causar problemas quando ocorre super-população no intestino delgado. A restauração de um equilíbrio saudável da flora intestinal é a melhor solução a longo prazo para resolver um problema de histamina.

7 passos que você pode fazer para melhorar os sintomas de alergia

Então, isso significa que eu posso jogar fora minha bombinha ou inalador? Não exatamente. As reações alérgicas graves não são algo que podemos brincar, e a maioria das pessoas com anafilaxia sempre terá algum grau de sensibilidade. No entanto, há várias coisas que você pode fazer para reduzir a gravidade dos sintomas de alergia e melhorar sua qualidade de vida como um todo.

  1. Tomar probióticos ou comer alimentos fermentados:
    Os alimentos fermentados e probióticos podem ajudar a microbiota e seu sistema imunológico a ficar em equilíbrio. Se você é sensível a histamina, tente cepas de degradação de histamina, tais como Bifidobacteria infantis e Lactobacillus plantarum.
  2. Comer muitas fibras fermentáveis:
    Consumir com frequência fibras complexas, como bananas, mandioca, batata-doce, que são fermentadas pelas bactérias intestinais, resultando na formação de ácidos-graxos de cadeia-curta (SCFA) como butirato, acetato, propionato, que regulam o sistema imune. Butirato tem demonstrado reduzir a permeabilidade intestinal para antígenos alimentares em estudos realizados com ratos envolvendo alergia alimentar e indução de células T reguladoras, que suprimem respostas imunes. Em ratos, propionato demonstrou reduzir  doenças alérgicas das vias respiratórias (22).
  3. Fazer o teste de sensibilidades e evitar alimentos inflamatórios:
    Continuar a consumir alimentos que você é sensível pode causar inflamação de baixo-grau e prejudicar a cicatrização do intestino. Considere manter um pouco de carvão ativado na mão para aqueles momentos em que você acidentalmente comer algo que você é sensível. Muitas pessoas acham que o carvão ativado pode proporcionar alívio rápido e seguro para alergias alimentares.
  4. Tente uma dieta de baixa histamina:
    Uma dieta de baixa histamina muitas vezes pode reduzir a gravidade dos sintomas da alergia. Alimentos ricos em histamina incluem alimentos fermentados, queijo envelhecido, frutas cítricas, peixes, mariscos, abacates, espinafre, cacau e restos de carne, por exemplo. Considere tomar quercetina (um anti-histamínico natural) ou diamina oxidase (a enzima responsável pela degradação de histamina) em forma de suplemento, e utilizar ervas anti-histamínicas como tomilho e manjericão sagrado na culinária.
  5. Faça o teste para SIBO ou patógenos intestinais:
    SIBO e parasitas intestinais são comuns, mas muitas vezes esquecidos como causas de alergias. SIBO é também uma causa comum de intolerância a histamina.
  6. Tente consumir mel puro produzido na sua região para combater alergias sazonais:
    Mel Cru (mel não processado) contém bactérias benéficas e vestígios de pólen carregados pelas abelhas a partir de plantas locais. Consumir mel cru que foi produzido em sua região pode ajudar a “educar” seu sistema imunológico a tolerar estes polens locais. Um estudo piloto controlado-randomizado publicado em 2011 mostrou que pacientes alérgicos que consumiram mel de pólen de bétula reduziam em 60% os sintomas de alergias e tinham duas vezes mais dias sem sofrer nenhum sintoma de alergia durante a temporada de pólen de bétula (23).
  7. Tomar algumas medidas para curar seu intestino

Muitas pessoas acreditam que mudar para uma dieta rica em nutrientes pode melhorar significativamente os sintomas da alergia.

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